De acordo com os últimos números do IBGE divulgados em 2017, entre os anos de 2005 e 2015, o Brasil aumentou cerca de 1,1 milhão de famílias compostas por mães solteiras, totalizando 10,6 milhões de famílias do gênero, morando ou não com outros familiares. 

        Mesmo com o crescimento na quantidade total, o instituto de pesquisa aponta que os números diminuíram de 18,2% para 16,3%.

Luciana Reis é decoradora de festas, moradora de Duque de Caxias – RJ, foi mãe solteira e atualmente tem 51 anos, mas conta que se casou aos 18 e apenas três meses depois descobriu a gravidez. Ela relata que passou a gestação toda sendo vítima de violência doméstica, o que a fez ter complicações na hora do parto e quase vir a óbito devido a um grave caso de eclâmpsia.

“Parecia que ele me odiava. No dia 14 de janeiro eu quase morri por tanta coisa que passei, mas tudo passou despercebido porque eu sobrevivi. Ainda fui julgada, levei a culpa, cansei de ouvir que ele era bom e merecia coisa melhor. Ninguém sabia o que eu estava passando.”, explica a mãe.

De acordo com Luciana, quando sua filha Letícia tinha cerca de 1 ano e 6 meses, ela resolveu que era hora de se separar do marido abusivo e pai ausente e voltar para a casa dos pais. Reis conta que teve ajuda financeira da família para que pudesse ficar em casa apenas cuidando da filha, mas que acabou colocando sua própria vida em segundo plano.

Ela relata que foi muito julgada por familiares e pessoas de fora por ser mãe solteira, coisa que ainda era mal vista pela sociedade nos anos 90 e que os julgamentos aumentavam ainda mais quando o assunto era sua vida amorosa.

“Quando a Letícia foi para a escola eu senti um pouquinho o preconceito. As mães eram todas casadas, então eu tinha medo de conversar e ser julgada também, evitava fazer amizade. Até que um dia, em uma conversa, eu falei. Logo depois teve uma festinha de aniversário da amiguinha da sala, todas as mães foram convidadas, menos eu. No convite a mãe deixou bem claro que era pra eu deixar a Letícia na festa e depois buscar. Eram crianças de 3 e 4 anos, não tinha condições de deixar ela sozinha numa festa.”, conta Luciana. “Eu tenho certeza que tudo isso aconteceu porque eu era pobre, sem trabalho, sem nada. A mulher pobre é muito mais julgada, eu acho. Namorar ou refazer a vida então, eu ouvia assim: ‘ela não quer saber da filha’ e isso foi por muitos anos.”


Luciana conta que precisou brigar com a família para que parassem de julgá-la. (Reprodução/Acervo Pessoal)

Segundo a decoradora, após passar 15 anos voltada apenas para o cuidado da filha em tempo integral, ela conseguiu um emprego de carteira assinada pela primeira vez e foi nesse momento que passou a enxergar a si mesma.

“Foram 15 anos só sendo mãe. Fiquei sozinha, me separei aos 21 anos e não casei mais. Eu fiquei tão presa que não foi fácil voltar ao mundo, até hoje tenho muita dificuldade.”, explica Luciana, que afirma que seu objetivo sempre foi ser feliz e se sente orgulhosa de si mesma por ter conseguido criar a filha sozinha apesar dos desafios.

Jacqueline Santana, prima de Luciana, é gerente de restaurante, também moradora de Duque de Caxias, tem 52 anos e é mãe solteira de duas meninas. Ela conta que engravidou pela primeira vez aos 30 e que mesmo não sendo casada, sua gestação foi muito festejada pelos próprios pais, com quem morava e que sempre sonharam em ser avós. De acordo com a mulher, o relacionamento com o pai da primeira filha, Lara, durou cerca de dois meses e o ex-parceiro apenas deu atenção para a criança durante o primeiro ano de vida por pressão dos amigos do trabalho.

“Quando a gente se conheceu ele estava recém-separado e no meio da nossa relação ele voltou para a esposa, então por isso que nós terminamos, inclusive. Aí, o que aconteceu, ele deu atenção até o primeiro ano dela, exatamente até o aniversário de um ano, e a partir daí ele se distanciou.”, relata a mãe solteira.


De acordo com Santana, o pai da primeira filha nunca deu qualquer apoio financeiro para o sustento da criança. (Reprodução/Acervo Pessoal)

Segundo Jacqueline, a situação financeira dela e da família permitiu que a criação de Lara ocorresse de forma tranquila, sempre suprindo as necessidades da criança da melhor forma possível. Ela se considera privilegiada por ter podido continuar trabalhando enquanto seus pais cuidavam da menina sem que precisasse se preocupar. 

Contudo, a gerente explica que a situação foi completamente diferente após o nascimento de Mirella, sua segunda filha. Ela relata que a chegada da criança aconteceu quando ela já tinha 42 anos, após o parceiro pedi-la para engravidar e como ele já tinha outros filhos, o plano era que todos se juntassem para formar uma nova família. Quando Jacqueline estava perto dos cinco meses de gravidez, o relacionamento terminou sem qualquer explicação da parte do pai de Mirella. Com o estresse da separação, Santana adoeceu emocionalmente e sofreu complicações na hora do parto.

 

De acordo com Jacqueline, ela teve um quadro de pré-eclâmpsia, que a deixou com sequelas. (Reprodução/Acervo Pessoal)

A mãe de Lara e Mirella conta que desta vez teve que se mudar da casa dos pais e não teve como deixar a filha mais nova sob os cuidados deles devido sua saúde debilitada, então ela precisou se dividir entre o trabalho e a criação da filha mais nova. Segundo a gerente, essa nova realidade se mostrou bastante complicada, já que a situação financeira da família havia mudado bastante com o decorrer dos anos e por vezes ela precisou largar o emprego para cuidar dos pais adoentados.

“Meu pai me cedeu uma casa pra eu morar com ela e com a Lara, sempre com o suporte deles na casa de baixo, mas não como antes.”, explica Santana. 

Diferente da prima Luciana, Jacqueline, que foi mãe pela primeira vez no início dos anos 2000, acredita ter sofrido preconceito por ter criado as filhas sozinha poucas vezes na vida materna.

Uma vez houve uma briga de família, eu acabei me envolvendo com um comentário que fiz em uma rede social e uma das pessoas envolvidas falou assim: ‘Ah, eu tenho a minha vida estabilizada com o meu marido, não tenho um filho de cada pai.’. Ela não citou o meu nome diretamente, mas citou essa situação que era a minha.”, conta Santana, que afirma não ter se ofendido com o comentário do parente.

De acordo com Jacqueline, agora que não tem mais presença dos próprios pais na criação das filhas, ela se vê na verdadeira realidade de uma mãe solteira e apesar de todas as dificuldades que se enfrenta, diz que está fazendo seu melhor em termos financeiros e, principalmente, de carinho.

Hoje me dia eu ‘tô’ com 52 anos, já não tenho mais o mesmo dinamismo de antes, mas eu tento fazer o máximo pelas duas e acho que é a obrigação da gente, entendeu? A obrigação da gente é fazer o que pode pelos filhos enquanto eles estiverem com a gente, enquanto eles não tiverem condição financeira e emocional de se manterem.”, finaliza a mãe.