Segundo levantamento da Associação Nacional dos Registros de Pessoas Naturais (Arpen), realizado, os cartórios de todo o Brasil registraram 56,9 mil crianças com apenas o nome materno na certidão de nascimento entre janeiro e abril de 2022. E de janeiro a julho do mesmo ano, cerca de 8.183 crianças foram registradas como filhas de mães solo somente no estado do Rio de Janeiro.
Em uma entrevista ao portal Filhos da Mãe, Mayra Lameirão, psicóloga formada pela UFRJ que trabalhou no judiciário na vara de infância e família, fala como essa realidade pode afetar a saúde mental dessas mulheres desde o início da vida materna.
De acordo com Mayra, ela também é filha de mãe solo.
(Reprodução/Instagram/@mayrasblameirao)
O abandono de uma mulher durante a gestação pode prejudicar em algo na hora do parto?
Como essa mulher vai vivenciar esse abandono, essa separação pode sim influenciar no parto e pode influenciar no pós-parto também. A depressão pós-parto é uma realidade, as mulheres das mais variadas classes sociais, de qualquer religião, de qualquer etnia, estão sujeitas a vivenciarem a depressão pós-parto. Embora seja muito pouco falado, é muito comum, né. E mais uma vez a gente vai para aquela questão do entorno. A depressão é um transtorno, uma doença psíquica, que precisa ser tratada como tal. Ainda existe um tabu muito grande em alguns espaços sobre depressão pós-parto, mas assim, é comum. Então sim, pode influenciar. Como ela vai vivenciar essa gravidez pode sim influenciar na ocorrência, não de uma depressão pós-parto, mas tem mulheres que têm uma gravidez super tranquila, com companheiros do lado e que acabam entrando nesse quadro aí [...]. Então pode acontecer? Pode! Mas não é determinante. Uma mulher que tem um companheiro, que tem uma estrutura financeira e social… Tanto um companheiro, quanto uma família, uma rede, um suporte de apoio do lado, pode desenvolver uma depressão pós-parto. E uma mulher que não tem todos esses recursos pode não desenvolver, mas o modo como ela vai vivenciar a gestação dela pode influenciar nisso.
Esse trauma emocional durante a gestação pode fazer com que essa mulher tenha sequelas psicológicas pelo resto da vida?
Depende muito, tá? Quando a gente tá pensando na psicologia, a gente tá pensando nos indivíduos. [...] A gente tem os atravessamentos sociais e o abandono. Os pais que abandonam os seus filhos e as mães dos seus filhos é um atravessamento social, é um fato. É enorme o número de crianças e adolescentes no Brasil que não têm o nome do pai na certidão de nascimento. Mas a gente também tem o que é do indivíduo, numa pessoa, num sujeito. No caso, nessa gestante, nessa mãe, a gente tem que considerar as duas coisas: A gente tem que considerar os fenômenos sociais – que é o desemprego, a baixa renda, que é ter que assumir um filho sozinha, que é ter que passar uma gestação sozinha, sem rede de apoio, sem o apoio de quem deveria estar do lado —; e o que é do sujeito. Algumas mães vão conseguir lidar com isso de uma forma e outras vão lidar de outra. Então eu não consigo dizer ‘pra’ você se existe uma sequela essa ou aquela, mas o que eu posso dizer 'pra' você é que isso é muito frequente no Brasil o tempo todo. [...] Então eu não sei se tem uma sequela específica. Algumas gestantes podem entrar em depressão, outras podem desenvolver outros desequilíbrios hormonais e outras podem só ficar muito tristes e tentar conseguir apoio nas suas próprias redes familiares e de amigos. Enfim, vai depender muito de cada sujeito, da condição financeira das pessoas, vai depender se ela está empregada ou não, se ela tem rede de apoio, se ela não tem, então não tem uma matemática ‘pra’ isso, sabe? Depende muito do que está em volta dessa mulher.
Existe algum tipo de sintoma ou problema psicológico que você observou ser comum entre essas mães solo?
Olha, não sei se tem um sintoma comum, mas eu acho que o que tem em comum, eu não sei se posso chamar isso de sintoma, mas tem um desamparo, uma sobrecarga mental muito forte, né. São mulheres que têm uma sobrecarga mental muito forte, muito grande, porque elas estão ali responsáveis, na grande maioria das vezes, por tudo o que envolve o dia a dia da criança. Pela manutenção financeira dessa criança, pela educação, pela questão subjetiva de ensinar valores, de educar mesmo, de alimentar, enfim… tudo é responsabilidade dessas mulheres, né. Então é uma sobrecarga muito grande. E com essa sobrecarga ela adoece. Muitas mães entram em depressão, muitas mães desenvolvem síndrome do pânico, têm crises de ansiedade. Síndrome do pânico é o nome ‘pra’ um grupo de sintomas que envolve insônia, ansiedade e envolve uma série de coisas. Então assim, sim, nessas mães eu via muito isso em comum, eram mulheres muito sobrecarregadas, muito cansadas e que muitas estavam ali tomando rivotril, tomando antidepressivos, porque estavam precisando dar conta da própria vida e da vida de seus filhos sozinhas. Quando você ‘tá’ numa vara de infância você tem muito contato com mulheres que estão ali no limite e quando eu falo no limite, é desde a mulher que ‘perdeu a mão’ e acabou espancando a criança, até aquela mulher que a vida dela está tão complicada, tem tanta coisa acontecendo, que ela acaba perdendo a criança, que a criança está acolhida, fica um tempo longe dela até ela se organizar e a criança poder voltar pra ela, ou a criança ir pra adoção. Então eu vi muitas mães solo no limite. A conclusão que eu chego é que muito desse sofrimento poderia ser evitado se essas mulheres tivessem uma rede adequada de apoio do lado, começando pelos pais dessas crianças. Eu via muito isso, muito cansaço, muita exaustão, depressão, insônia, enfim. Isso tudo o que o quadro depressivo compreende, né.
Você tem conhecimento de algum programa governamental que vise assistir a saúde mental dessas mães ou programas de incentivo ao bem-estar materno?
Que eu conheça não tem nenhum programa governamental que vise assistir a saúde mental dessas mulheres, não. Infelizmente a maternidade ainda é uma coisa de segunda mão na nossa sociedade: ou você culpabiliza a mãe por tudo o que a criança faz, por tudo o que acontece na vida da criança ou você exclui a mãe de tudo, dos espaços públicos, do bom emprego. [...] A única política que eu vi acontecendo no judiciário era um projeto chamado ‘Pai presente’. O Pai Presente consistia nas escolas públicas (municipais) levarem até o judiciário o nome e a documentação das crianças que não tinham o nome do pai na certidão. A partir desta entrega, desta listagem, a gente, psicólogo e assistente social do judiciário das varas de infância, entrava em contato com essas famílias e começava a conversar com essas mães ‘pra’ saber quem eram esses pais, se elas tinham o interesse que esses homens assumissem essas crianças legalmente e mediante a isso, pagasse uma pensão alimentícia, que é o mínimo que se espera. E aí a gente fazia isso. As escolas entregavam ‘pra’ gente a listagem das crianças que não tinham o nome do pai na certidão e a gente chamava a mãe. Na maioria das vezes a mãe falava assim ‘pra’ gente: ‘Olha, ele sabe que essa criança existe e ele não quer. Ele virou as costas e foi embora’ e a gente perguntava: ‘Você quer que ele assuma?’, porque muitas vezes a mãe também não queria. A mãe tinha uns casos aí de pais adictos, usuários de drogas, de pais alcoolistas, de pais envolvidos com tráficos, milícias e essas mães preferiam que eles não assumissem. Mas em outras situações essas mães diziam ‘Não, tudo bem. Se a justiça quiser cobrar dele, eu quero’ e aí era o segundo momento. Aí a justiça determinava, um oficial de justiça ia atrás desses pais convocando eles a responderem judicialmente por essa ausência e aí eles eram obrigados a reconhecer essa paternidade e começar a pensionar, dar pensão alimentícia para essas mulheres, na verdade, ‘pra’ essas crianças, porque na verdade, quem administra é a mãe. Então foi a única coisa que eu vi, mas não diz respeito à saúde mental dessas mães diretamente, é uma situação indireta. Porque geralmente as mães solo, se a gente for pensar no público que eu conheci, que é o público da baixada fluminense e do subúrbio do rio de janeiro, são mães com subempregos, com pouco estudo e mesmo as que estudaram, tinham cargas horárias de trabalho bizarramente altas 'pra' poder conseguir ganhar o suficiente para alimentar todo mundo. Então assim, esse projeto não era voltado para a saúde mental dessas mulheres, mas indiretamente acabava aliviando, digamos assim, um pouco à medida que entra uma pensão alimentícia. Foi o que eu consegui ver nesse sentido.
Fazer terapia é um passo importante para aprender a lidar com os nossos traumas, mas você teria alguma dica que possa passar para essas mães conseguirem se manter calmas naqueles momentos em que bate o desespero?
[...] Fazer terapia quando pode, quando é possível, é excelente, mas assim, mais importante que isso é que se mude essa cultura que permite que os pais abandonem as crianças, que esse abandono que é tão naturalizado, que a gente possa pensar sobre essa cultura e acabar com isso. Não, o filho não é da mãe, o filho é do pai e da mãe. [...] Eu acho que a gente não pode mais naturalizar um homem que abandona um filho, a gente não pode naturalizar isso. A gente não pode naturalizar que essas mulheres tenham que segurar essa barra sozinha, né. [...] Então acho que para além de pensar a terapia, no cuidado com a saúde mental dessas mulheres no âmbito do privado, a gente tem que pensar nessa cultura que a gente vive, que é esse ok que uma mãe seja uma mãe solo, né, que ache ok que o homem tenha o direito de escolher ou não se ele vai ser pai de uma criança. Ele não tem esse direito.
A violência como ‘forma de educar’ é um outro fator cultural importante na sociedade brasileira. Eu não sei como é em outros países latinos, eu acho que isso é bem parecido. Essa coisa de educar batendo é um traço muito forte da nossa cultura, né. Hoje existe uma lei chamada ‘lei da palmada’ que proíbe o uso de violência física no cuidado com as crianças. A gente tem a agressão física como um modelo de educação, eu apanhei, você apanhou..., mas eu penso que se essa sobrecarga em cima dessas mulheres fosse menor, talvez essa violência não fosse tão grande, sabe? Eu penso muito sobre isso. Existe aí muita gente, muitos educadores parentais, muitos psicólogos que falam de educação não violenta, eu acho que esse é o caminho. [...]
Então é um trabalho de formiguinha, produzir uma reflexão sobre a própria infância. Talvez a dica que eu tenha é: se for possível, pense na sua própria infância. Foi bom pra você apanhar? Não deixou cicatriz? Você não preferia que a sua mãe tivesse conversado com você?’. Eu acho que é por aí. Eu acho que é ter em mente que a criança não vai ser o que você espera, ela não vai fazer o que você espera. Elas são crianças, né. E cabe à gente, os adultos, respeitar. Porque criança faz barulho, criança faz bagunça, criança ‘tá’ se desenvolvendo. Não dá ‘pra’ exigir nada delas. Mas é muito difícil exigir de uma mulher que está muito sobrecarregada, que foi, certamente, muito violentada pela vida, que ela consiga ter essa compreensão instantaneamente e respirar muitas vezes. Todo mundo sofre.
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